Para muitos poveiros, incompreensivelmente, este lugar é-lhes estranho, nunca lá entraram; outros, têm deste lugar uma longínqua lembrança, de uma ou outra visita de estudo que fizeram nos tempos de escola; mas também há quem tenha conhecido o "antigo" Museu e conheça o novo, e o visite com frequência.
Para a minha Família materna, o Museu Municipal já significou “lar”. Literalmente. A minha Mãe e os seus irmãos, nasceram e viveram lá durante muitos anos, porque o meu avô Quilôres na altura era o responsável pelas instalações, hoje, o termo certo seria “Director” eheheh, e a minha avó também lá trabalhava. Alguns dos meus primos e também o meu Irmão, tiveram o privilégio de lá passar os primeiros anos da sua infância.
Anos depois, o lugar da residência mudou, mas a ligação da Família ao Museu permaneceu e ainda se mantém. A minha Tia Mila ainda lá trabalha e o meu tio Zézé, apesar de se ter reformado, é incapaz de se desligar daquilo. Depois houve o meu querido primo Tony, que foi um dos funcionários mais marcantes que passou por ali.
Apesar de não termos vivido lá, nós, os netos que se seguiram (Gininha, Filipe, Pedro, Silvinha, Rubito, Tininha, Paty, Vitó e Inês), crescemos, tendo sempre o "Museu" como parte integrante da nossa vida. Fotografias da nossa infância atestam a estreita ligação que temos àquele espaço, cujos cantos conhecíamos de cor. Passávamos horas lá metidos. Adorávamos visitar a oficina do Tio Zé e, pelo caminho, rebolarmos pela rampa do corredor que nos levava até à porta. Não nos cansávamos de apreciar o barco salva-vidas “Cego do Maio” e, bem ao lado, os faróis de Portugal feitos à mão, em areia, pelo nosso Tio. Divertíamo-nos a olhar os quadros de alguns dos homens do mar, que nos seguiam com o olhar, sempre que passávamos da direita para a esquerda e vice-versa. No andar de cima, fascinava-nos a sala de jogo e, quantas vezes, sem que ninguém nos visse, fazíamos girar a roleta! Depois íamos ver a sala do nosso Avô. Nunca saíamos de lá sem passar por aquela sala dos Jogos Poveiros. Os bonequinhos feitos pelo meu Avô, vestidos com roupinhas feitas à mão pela Avó Isolina, eram o nosso orgulho! Descíamos novamente para o primeiro piso, por umas escadas em pedra que à noite metiam medo e pelo caminho sentíamos o cheirinho do Café da D. Aninhas. Na recepção, os que tinham coragem, enfiavam-se no túmulo em pedra que lá esteve exposto anos a fio.
O Museu era um dos cenários preferidos para as nossas fotografias. Temos umas em cima do poço; outras no quintal quando alguém fazia a Comunhão; outras na fachada, todos em fila, a fazer uma escadinha...
Agora, o interior está muito diferente, mas as sensações que tenho, quando lá entro, são as mesmas. Até o cheiro é o mesmo.
Hoje, tive que lá ir cumprir uma tarefa de trabalho. Fez-me bem estar lá. Aviva as saudades, é certo. Mas sabe muito bem percorrer aqueles corredores e visitar aquelas salas. Há um pouco da minha Família em cada canto. E, depois, há o espírito de pessoas especiais que lá continuam presentes, independentemente da modernização e das alterações do espaço.
Não é à toa que somos conhecidos pela “Família Museu”... :)